Acabou. Expiro aliviado. Parece que é a primeira vez que me olho diante deste espelho sujo e rabiscado. As páginas mofadas daquele caderno velho e rasurado, no qual vomitamos e defecamos inúmeras vezes, não me mastiga mais. Retornei a condição existencial primária da qual somos filhos: a solidão. Sempre estive aqui, a diferença, ou melhor, a indiferença, é que agora não carrego comigo a bigorna da tua ausência, nem a lembrança de teus olhos vítreos me acompanhando. Já não recordo da textura da tua boca. Não há mágoa, saudade ou remorso.
Existe apenas um vão... tão fundo como sempre foi: o buraco sem fundo que somos, onde existimos e insistimos em empurrar qualquer coisa para dentro, na tentativa desesperada de que ao menos ecoe algum som quando estiver em queda, harmônico ou distorcido que seja, para que nos distraia e tinja este apagão de outros tons, para que o grito da nossa própria voz não seja o único chiado a ressoar em nossos ouvidos!
Eu te atirei lá também!
Assim como a tv à cabo, a internet e notebook, o álcool, a nicotina, o videogame, o celular de ultima geração e seus os aplicativos e redes sociais, o sexo casual no banheiro do bar, as gorduras que como nos fastfoods de shoppings; o carro que comprei, os eletrodomésticos e as roupas de marcas, que não sabemos nem pronunciar o nome! Assim como o próximo concurso, a próxima profissão, a casa financiada, o empréstimo, a fila do banco, as filas, as filhas do próximo relacionamento, o próximo poema, a próxima festa, e a tv à cabo e internet de novo, e a nova banda do momento e suas tendências, a nova garota no curso, os livros, o filmes, e tudo o que é vendido com eles; até as causas pelas quais levanto bandeira e luto!
TUDO!
E sempre mais e mais, e mais... de novo, de novo e de novo.
As coisas são a gradação de um mesmo tom: o absurdo oco de existir em um turbilhão de contrários.
E o meu umbigo é apenas mais uma porra de um ralo...
this silence kills
https://www.youtube.com/watch?v=BDsuR22GQPQ
Ana Mendes.

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