O doente estrebuchava
de um lado para outro,
percebeu que havia
secreção nos lençóis
não conseguiu identificar
que tipo de líquido era.
Isso o deixava mais atônito.
Parou
pensou
sentiu
percebeu.
Há necessidade disso?
te toda essa luta
dessa resistência?
Relaxou os ombros
a feição
estirou suavemente
seu corpo dolorido
sobre a cama ensopada.
Olhou atentamente (enquanto tinha espasmos)
para a telha transparente do seu teto
viu a lua naquele quadradinho
bem em cima dos seus olhos.
Sorriu um sorriso sem dentes
mas sorriu.
Olhos suavizando...
não mais aquele vermelho quase explosão.
a dor continuava ali
menos intensa
quando rendeu-se
que não mais viria a ser.
Quando o encontraram
na sua bagunça de casa,
filas de formigas por todos os lados
restos de comida na pia (que fediam mais que ele)
um cheiro forte de mijo que vinha do pequeno banheiro
e muita quinquilharia espalhada nos cômodos,
Se depararam com uma beleza póstuma sobre a cama:
um colorido roxeado envolta do seu corpo magro e agora rígido
mais concentrado no pescoço
(já que sufocou tranquilamente contemplando a lua)
Olhos estáticos de um brilho opaco
mas brilha
e um sorrisinho sem dentes expostos.
Se não fosse o roxo e a rigidez de seus membros
todos diriam que era mais uma palhaçada
e que levantaria num salto e em gargalhadas
nas fuças de todos.
Ana Mendes

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