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Ana Paula Mendes de Oliveira: Ana. Existe outra além dessa carapaça que vos fala e isso que enxergas! obs: sem compromisso com a gramática

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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

agito minhas pernas...

agito minhas pernas
mais veloz do que
os acontecimentos
que me arrodeiam
no intento tolo de não sentir
o que nos é intrínseco
porquê tudo me falta
e irá me faltar meu bem
sou sem fundo sem prumo
sem rosto sem eixo
o escambau o escarcéu
e mãe ainda continua...
a persistir no cuidado
ao me dizer que arrume
o giral daqui de dentro
todas as minhas agendas
tornam-se cadernos de poemas
e troço dos conselhos
sobre ganhar dinheiro
pois não sei o que fazer
e não quero...
das obrigações das horas de mim
porque tenho pensares e sentires viciados
cativa do que desconheço e da criação
e eu gosto...
pois ser suspensa de certezas
me fez extraordinária e desgraça
mas não sinta pena de mim
não lamente não chore
não tente o socorro nem o corte
pois nos sinto libertas
nas possibilidades das escolhas
apesar da saudade
do gosto de sangue na boca
e nos punhos as machucaduras
o saber de nós é o que importa

Ana Mendes

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

ei maricona

ei maricona

põe uma música para dançar minha saudade me batizas com outro nome vamos procurar uma morada para encostar os sonhos e os punhos molotov tomar um café enquanto fumo o paiol que detestas ri e tombar os egos lhe declamo meus poemas mela cueca e eu sei que tu adora meus ridículos e vícios e é tão bonito o desponte do sol e tu doçada diz como é bom amadurecer a gente apara a cabeça do amigo dá água e paninho para limpar o vômito enquanto me confessa o cafajeste romântico de como foi superar a si para ser amiga dela....

Ana Mendes

eu disse eu fiz

eu disse eu fiz
porquê sei que você gosta
quando me faço de doida de malandra
oscilando entre a timidez e a sem vergonha
da minha alma atirando a roupa
porque você gosta
desse indefinido no olho
do rouco gasguito da voz vagarosa
e do meu pique. esconde. moleque...
de não desvelar meu rosto
e eu gosto
dos seus suspiros de mar
do efervescente da pele
de seu cabelo ventania
desgrenhando-me a fuça
quando abraçamos as curvas
como você se sente ao som do blues baby
o que você faz quando ninguém tá por perto
vamos rir dos machucados que coçam e das cócegas
vamos troçar desta besteira trágica
que é a grandeza de existir
pois tudo o que temos
são agoras...

Ana Mendes

https://soundcloud.com/ana-mendes-25/poemajhonleehooker 

30.12.16

a descoberta de que não existo que sou
uma birra um esperneio em espiral sem rosto
a hipocrisia em bom mocismo a doença gentil submissa
do sim sem ao menos ouvir a pergunta o medo da rejeita
que do pouco que sente é espetáculo sem rumo
cativa da racionalidade-circuito-fechado
o que há de você na tua aparência é o eco
que me destoa poemas miasmas a esmo
a esmo a mesma a mesma entulho comida azeda
o achismo de que viver é ser atrás da porta tentando ver
através das frestas a amplidão tal qual menino cabido
sou ainda um quase nada que mal sente uma infante teima
a cisma o simulacro do eu invisível ainda
auto aversão embutida cristã paternalista
quero que pare

Ana Mendes
ps: o mar é um útero

29.12.16

"você é estranha"
quis lhe enviar uma poema que ainda não foi escrito lido
mas o que ainda pode dizer o meu escândalo
o que ainda pode os clichês do nosso tempo
todas as coisas sinceras são bregas e sem jeito
o mesminho que nossa timidez teu riso e o primeiro encontro
e eu agradeço por esse lugar nossso na terra
onde os quadris ninam os olhos alimentam
e o silêncio e a luz baixa nos diz
mesmo tresloucando. sumo. minha alma mãe
amigos estômago peito: saudade é um entardecer
uma crise de ansiedade uma rede e em espanhol é
extrañar... quis soubesse

Ana Mendes

25.12.16

Era no verão em que Frankie se sentia enjoada e cansada de ser Frankie. Odiava-se, tornara-se uma vagabunda, uma inútil que rodava pela cozinha: suja e esfomeada, miserável e triste. Demais, era uma criminosa... Aquela primavera fora uma estação estranha, que não acabava. As coisas puseram-se a mudar e Frankie não compreendia a mudança... Havia algo nas árvores verdejantes e nas flores de abril que a entristecia. Não sabia por que estava triste, mas por causa dessa tristeza singular pensou que deveria ter saído da cidade... Deveria ter saído da cidade e ido para longe. Pois naquele ano a primavera fora displicente e açucarada​. As minhas tardes passavam devagar e a doçura da estação dava-lhe nojo... Cedo pela manhã ia, às vezes, ao pátio e ficava um bom momento a olhar a alvorada; e era como uma pergunta que lhe surgia no coração e a que o céu não respondia. Coisas que antes nunca notara começaram a impressiona-la: as luzes das casas que percebia à noite quando passeava, uma voz desconhecida saindo de um beco. Olhava as luzes, ouvia as vozes e algo dentro dela retesava-se à espera. Mas as luzes apagavam-se, a voz calava e, apesar de sua espera, era tudo. Tinha medo dessas coisas que a levavam a pergunta-se repentinamente quem era, que iria torna-se no mundo, e por que se achava ali a ver uma luz, a escutar e fixar o céu: sozinha. Tinha medo e o peito oprimia-se estranhamente.
... Passeava na cidade e as coisas que via e ouvia pareciam-lhe inacabadas​ e havia nela aquela angústia. Apressava-se em fazer alguma coisa: mas não era nunca o que devera ter feito... Após os longos crepúsculos da estação, depois de ter perambulado pela cidade toda, seus nervos vibravam como um melodia melancólica de jazz, seu coração endurecia-se e parecia parar.
Trecho de um livro de Carson Mac Cullers, apresentado por Simone de Beauvoir no O Segundo Sexo.

23.12.16

a ausência de crianças bichos e abraços
é devastador à alma de seus pedestais
catedráticos umbigos eles caducam ditam
com palavras em riste que enfadam o espírito
lhes jurando ser poesia e isso é o mesmo...
que a amazonas inteira sobre areia movediça
externo aos prédios da grade curricular
do lattes e do engomado da roupa permita
que tua língua dance pois para poesia
não há aresta que a comporte
ana meu bem com o amor e a vida
não se argumenta não se força
deixe isso para o estreito
dos homens

Ana Mendes

20.12.16

tenho alguns dias incrustados nos dentes
do álcool a nicotina das salivas alheias
a maresia melancólica da quentura fresca
as ladeiras me envergando
as esquinas a me sucumbir
semanas de um longo ébrio limbo
e brega é dela que lembro
cabeça flagelada cutículas roídas obsessiva
e nem escrever me é sentido quando a alma
esgano na paranoia do maniqueísmo juízo
de tu enquanto falta masturbo nossos rostos
e esta da noite interpreta o que quer
dos meus desesperos sorrisos
my darling
nossa modéstia é presunçosa
nosso umbigo tragédia delícia
e a saudade tua é de mim
que sinto

Ana Mendes

19.13.16

meu lugar nenhum
minha surdina vagarosa
me perdoa pois ainda
despenco em umbigo
ainda é doença
muito do que sinto
e o que não me cabe
vomito e por vezes
birrenta agressivo
a superfície das córneas
e as falanges não aguentam
mais estes murros de facas
nos quais estúpida insisto
tudo ao nada

Ana Mendes

13.12.16

toda vez que lhe saio 
uma lasca de mim 
desprende desespero
não lhe ter na boca 
não sei o que fazer 
disso que me desmantela 
a alma carne de pulsar 
não nos bastamos
e ainda bem


Ana Mendes

09.12.16

esta noite deitei-me com o espelho e perdida de mim na carne me afundei os dedos quem não ama pensa que não existe estou tornando-me um clichê como todo o resto clicando selfies pregando um rosto blasé pois sei que vocês gostam mesmo é do tripudio das sobrancelhas qual é teu personagem o que há de você na tua aparência os mais velhos da mesa persistem em me perguntar o que é o amor e a me ensina-lo balburdiam palavras como transcendental e eu só desejava terminar a noite ébria sem ter que teorizar e defender minha dor me dizem o que fazer ditam-me rebelde riso troço de sua curiosidade sobre quem não se importa

Ana Mendes

05.12.16

tua mãe me diz para ir com deus e eu não sei o que fazer com essas e estas palavras me fazem chorar mais prefiro interpretar que foi seu intento de abraço e continuo meu contínuo ir embora de volta à gordurosa dormência da nossa rotina trabalhista quem está sob o concreto sabe o quanto dói sustentar a alma dependurada nos olhos e nos ônibus pelos braços e alguém morre atravessando por entre carros sou a merda de um liquidificador ligado e aberto um melodrama esperneio de tacar pedaços e uma das minhas pernas ficou na tua casa algo se desprendeu dentro coração tresloucado machuco porque você ainda me dói acredite se eu não demorar mais meus olhos ante aos teus é porquê quero que não mais exista aqui pois este é o meu talento reduzir as coisas a nada
Ana Mendes

05.12.16

sou Ana não a Ana Paula do registro institucionalizada há diversos diagnósticos para uma mesma dor e ser racional é o que dói mais cobardemente há flores que me seguem desde criança vez ou outra se desvelam para mim ou sobre mim minimalistas desejo que isso me sirva de alguma coisa nesse contexto do "para que". o que é suficiente se nem o amor basta? descobri a verdade é arrancar toda nossa meninice e a curiosidade que impulsiona as pernas sabe não nos deixaram ser criança por muito tempo e agora tô num eterno voltar a infância bater o pé dá a língua fazer birra mas sei não há solo para bater o pé da negação a gente só vai...
Ana Mendes

sábado, 3 de dezembro de 2016

Bras-ilícita

29.11.16
no céu de Bras-ilícita as nuvens parecem imóveis e olhar para cima dá a sensação de que o tempo não passa enquanto abaixo delas a convulsão plana: braços dardos ou não fazendo do corpo escudo cuidado e canhão pisando em flores quebrando vidros brincando de inventar nas nuvens caveiras no céu hélices dispostas chuva de bombas apimentadas no chão o grave do passos do batalhão avante em cima de gente a borracha a zumbir o impacto quente palácio do planalto funil matadouro camarote da morte nossa
PEC 55 aprovada e a revolta engasgada 


Ana Mendes

22.11

ah...
a quimera de pertencer
e permanência risível...
o amor mano é lugar fuga z
onde descansamos os joelhos do peito 
desse frenetic dancin days existencial
não é o amor que dói zé
é a ida é a ira de não soltar
taca teus pés de novo
ao vento menina

Ana Mendes

https://www.youtube.com/watch?v=CsSSORvFBNA 

19.11

crise de ansiedade ou saudade
corpo lapso sinto-a se aproximar quente em minhas costas esgueirando com uma das mãos brutas minha garganta rouca e congestionada e a outra sobre meu peito arfado súbita me desespera e torna do macio do colchão ao meu próprio corpo um cárcere liquidificador possesso choro trépido desespero é como acordar de um sono pesado no ar e tentar correr... por tudo aquilo que foi perdido e até pelo que ainda não morreu escrever às vezes me é uma bóia ou um para quedas ambos furados e ainda assim há algum instante de sossego

Ana Mendes

19.11



9:34 de um sábado de novembro. dia excepcional porquê estou desperta, algo raro para minha disposição notívaga, ainda mais com estes olhos astigmatizados sob o céu encandeante do rn. volto da casa dela, a visita foi a tentativa de um sono tranquilo. pois, a lição que não sabíamos descrever e que a personagem do filme Les Amours Imaginaries resume tão bem é: a conchinha é o que importa, rimos. é... posição fetal a dois abafando o mundo... e este tom grave na narração não diminuí o ridículo trágico de ser amor saudade dos meus teus olhos chapados ternos do infinito de nos vê...


Ana Mendes

sábado, 5 de novembro de 2016

paredes ostensivas...

paredes ostensivas teto engessado frio a janela abafa o mundo mas não é ela cada vez que respiro a dor torna-se mais bruta e poemas são instantes despedidas de gargantas abraçadas e quadris que ninam vamos manter esse espaço entre nós no qual o mundo não nos toca ou rouba a voz quando a gente sente? temos a ingenuidade de querer para sempre lembra? quando a sente... a vida ferve o morno dos dias para você que não alcanço e por isso amo



Ana Mendes



terça-feira, 1 de novembro de 2016

possibilidades a conclusão...

possibilidades a conclusão 
mais angustiante é 
a escolha que deve ser 
explode negação no peito 
manter-se apaixonado é 
incessantemente ir embora 
e o silêncio é à guisa 
de impedir 
o óbvio


Ana Mendes

domingo, 30 de outubro de 2016

quando for...

quando for embora
você e eu de mim
e os anos de tu me sendo
aqui do corpo do olho
na testa engelhada
penumbra e as coisas
pela casa
tua
espalhadas...
as vasilhas dos gatos
quase cheias ou vazias
a bosta esquecida
na areia e um silêncio
que não é o nosso
nas paredes da
ribeira
lembre...
meus teamos íris
a contemplar
teus dedos
languidos em
movimentos
bordados
silentes
e nós
distante
distende...
e quando minha
balbúrdia poesia
não mais te ame
drontar
recorde...
saudade
é uma
rede

Ana Mendes